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quarta-feira, janeiro 17, 2007

Estrada


Tenho uma facilidade de fugir para lembranças da infância quando estou com problemas, triste, ou sensível.
Lembro de sentir-me segura no banco de trás do carro, vendo por cima do encosto dianteiro o lenço na cabeça da minha mãe ou a careca de meu pai.
Sentia- me segura e amada, como o trajeto que seria percorrido eu já conhecia muito bem, dormia entre os brinquedos e livros, acordando para tomar um café da manhã de posto de gasolina, com bife, ovo e polenta frita.
O caminho, a estrada, os pára-choques de caminhão com frases sábias e curtas, a parada no rio para molhar o rosto e espantar o sono, colher as uvas na parreira, sentir o cheiro do pão feito em casa no interior de uma colônia, os diferentes tons de verde que sucediam na janela.
A segurança não era no lar, era na estrada, no trajeto eu tinha o melhor dos dois.
No banco de trás não tinha medo, era a criança mais feliz, bastava um carro, a estrada, meu pai e minha mãe no banco da frente.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Nó Cego


Existe algo em nossas infâncias que nos constitue os adultos que nos tornamos. Não é algo muito visível, claro, fácil. É algo difuso em nossa alma, profundo em nossa mente, rápido, quase imperceptível em nossos pensamentos rotineiros. Aparece no meio da noite como insônia, no meio da tarde como taquicardia. Algumas vezes é a força que nos faz enfrentar dificuldades, outras é a incapacidade de viver.
É uma marca imperceptível, interna, não uma cicatriz causada por uma queda ou uma traquinagem. É um nó cego e mínimo, que resulta de uma desatenção, de uma depressão, de um desamor, de um testar todos os limites sem ter ninguém para dizer não.
Talvez possamos desatar o nó e viver plenamente, ou talvez ao desatar desmorone todo castelo que construímos, talvez o nó desfeito revele a criança asfixiada que precisou crescer rápido para sobreviver.